Apito

Milhares de pessoas suadas, eufóricas, felizes, nervosas, preocupadas, empolgadas. Compartilhavamos do mesmo sentimento. Do outro lado, outra multidão que se vangloriava e estava cheia de si. Estávamos na mesma proporção quantitativamente. Não consegui ouví-los muito bem, mas dava pra ver seus gestos.
A nossa frente um time entrava em campo. Aparentemente sem nada demais. O nome de seus jogadores é dito pela multidão em preto e branco ao som de um apito que gerava mais nervosismo e euforia, como se isso fosse possível.
Eu me lembro que cheguei a comentar que não estava gostando da aparência do time enquanto eles estavam frente a frente com seus adversários, minutos antes do início do jogo. Me pareciam tristes, acuados, como vi no passado temeroso que embalava o medo daquela massa alvinegra.
Logo o aspecto do time mudou, junto com o semblante de toda aquela arquibancada enlouquecida e mista de caretas e gritos. O time jogava bem e logo surgiu o primeiro gol. Fomos ao delírio! Porém não demorou muito para que empatassem. E aí eu vi voltar - no rosto de cada um ali presente - um passado negro, ou melhor, rubro-negro. Um filme de 2007, 2008 e 2009 saltando sem parar na minha cabeça e, tenho certeza, na cabeça de muitos daqueles que estavam ali comigo.
E de repente surge um novo apito a fim de esfriar nossos ânimos, acalmar nossos corações, mas este não se deixava desacelerar. Volta o time. Música, gritos, música, apito, música, cartões amarelos, música, gols perdidos, música, GOL, música, música, música. Uma sequência de bolas na área de tirar o folêgo que tomamos do adversário.
O coração acelerado parecia desacelerar o tempo que passava, descansado, sem nenhuma pressa. Até que ouvimos o último apito. Nunca nada me soou tão confortável. Eu sinto minhas pernas bambas até agora. Agradeci mentalmente a cada pessoa que ali estava. A cada reza, cada superstição, cada um que usou sua cueca ou camisa da sorte, cada um que levou o seu pé quente.
Era o fim. Acredita? O fim não só do jogo. Era o fim do “cadê você?”, do “chororô”, vice campeonato, das piadas. Mas acima do fim disso tudo, era o começo… o começo de uma era, outra vez.


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